Abutres que não levantam vôo
Sendo curto e grosso, pode-se dizer que poucos “supergrupos”, aquelas bandas formadas por músicos vindos de outros projetos musicais já exitosos, conseguiram o feito de produzir em seus levantes algum material que prestasse. Com o final dos anos 60, que nos deu uma série de supergrupos influentes e verdadeiramente clássicos como o explosivo Humble Pie e o talentosíssimo Cream de Jack Bruce (Graham Bond Organization, Manfred Mann), Eric Clapton (The Yardbirds, John Mayall’s Bluesbreakers) e Ginger Baker (Graham Bond Organization), pouca coisa de alguma relevância sonora ou conceitual foi produzida por esse tipo de banda. Entre as causas mais comuns das rotineiras partilhas, batalhas violentas de ego entre os músicos “estrelas”, falta de entrosamento e compatibilidade ou simplesmente o habitual nível desastroso das composições.
Foi em uma tentativa de superar esse conceito que se formou o “Them Crooked Vultures”, resultado da união entre o lendário baixista John Paul Jones (Led Zeppelin), Dave Grohl (Nirvana, Foo Fighters) e Josh Homme (Queens of the Stone Age). Apesar de bem-intencionados, os experientes rapazes pouco fazem de palpável para conseguir cumprir sua meta. O álbum de estréia homônimo possui alguns pontos altíssimos, como a presença avassaladora do timbre seco já consagrado do contrabaixo de Jones e das viradas originais e energéticas entregues por Grohl, com destaque em “Mind Eraser, No Chaser”, faixa de rock alternativo consistente e com um dueto interessante de vocais entre Grohl e Homme, lançada como single e que representa o ápice dos bons momentos do disco. O entrosamento de baixo e bateria também é impressionante, sendo um ponto alto desse aspecto a faixa “New Fang”, uma espécie de repaginação do Southern Rock fusionada com o Boogie, que funciona bem e agrada os ouvidos.
Apesar disso, no restante do álbum, a banda peca pela platitude sem graça das guitarras, apresentadas em uma distorção que não empolga e que só se encaixa no som da banda com os vocais desmotivados de Homme. Em uma verdadeira “mistureba” infeliz de gêneros e influências completamente opostos, o grupo termina apresentando uma experiência sonora artificial, confusa e sem identidade, que se assemelha à de um cego de muletas em uma chuva de pedras, uma chuva torrencial sem um pingo da energia ou originalidade dos projetos iniciais dos envolvidos. Outro ponto que também decepciona é a mixagem de som. Em um trabalho extremamente incompetente por parte da equipe de engenharia de som, seguindo a tendência atual da música “mainstream”, o álbum todo está extremamente barulhento, com a guitarra e os vocais praticamente camuflando todo o resto de maneira que chega até mesmo a irritar. É realmente frustrante tentar escutar o trabalho criativo de Jones e só conseguir ser torturado pelo timbre sem sal e estrondoso das guitarras dobradas, que eu simplesmente não consigo imaginar com que objetivo foram colocadas tão alto.
É mais triste ainda constatar que, apesar de tudo, o álbum dos Vultures ainda foi uma das melhores surpresas do ano que passou, o que evidencia o atual momento catastrófico da indústria musical. Na cultura do mínimo esforço e do lucro máximo, pouco resta de original ou verdadeiro no Rock’n Roll. É quase como se o estilo tivesse tido sua morte decretada anos atrás, e tudo o que nos restou foi uma corrida desesperada pelos últimos centavos. Fãs de Queens of the Stone age podem até apreciar este álbum alternativo e bem-intencionado do Them Crooked Vultures, mas aos fãs de Lez Zeppelin ou Foo Fighters, fica o conselho: passem longe deste disco.







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