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Archive for April, 2010

Abutres que não levantam vôo

30/04/2010 7 comments

 

            Sendo curto e grosso, pode-se dizer que poucos “supergrupos”, aquelas bandas formadas por músicos vindos de outros projetos musicais já exitosos, conseguiram o feito de produzir em seus levantes algum material que prestasse. Com o final dos anos 60, que nos deu uma série de supergrupos influentes e verdadeiramente clássicos como o explosivo Humble Pie e o talentosíssimo Cream de Jack Bruce (Graham Bond Organization, Manfred Mann), Eric Clapton (The Yardbirds, John Mayall’s Bluesbreakers) e Ginger Baker (Graham Bond Organization), pouca coisa de alguma relevância sonora ou conceitual foi produzida por esse tipo de banda. Entre as causas mais comuns das rotineiras partilhas, batalhas violentas de ego entre os músicos “estrelas”, falta de entrosamento e compatibilidade ou simplesmente o habitual nível desastroso das composições. 

Pura cafonice também conta.

            Foi em uma tentativa de superar esse conceito que se formou o “Them Crooked Vultures”, resultado da união entre o lendário baixista John Paul Jones (Led Zeppelin), Dave Grohl (Nirvana, Foo Fighters) e Josh Homme (Queens of the Stone Age). Apesar de bem-intencionados, os experientes rapazes pouco fazem de palpável para conseguir cumprir sua meta. O álbum de estréia homônimo possui alguns pontos altíssimos, como a presença avassaladora do timbre seco já consagrado do contrabaixo de Jones e das viradas originais e energéticas entregues por Grohl, com destaque em “Mind Eraser, No Chaser”, faixa de rock alternativo consistente e com um dueto interessante de vocais entre Grohl e Homme, lançada como single e que representa o ápice dos bons momentos do disco. O entrosamento de baixo e bateria também é impressionante, sendo um ponto alto desse aspecto a faixa “New Fang”, uma espécie de repaginação do Southern Rock fusionada com o Boogie, que funciona bem e agrada os ouvidos. 

            Apesar disso, no restante do álbum, a banda peca pela platitude sem graça das guitarras, apresentadas em uma distorção que não empolga e que só se encaixa no som da banda com os vocais desmotivados de Homme. Em uma verdadeira “mistureba” infeliz de gêneros e influências completamente opostos, o grupo termina apresentando uma experiência sonora artificial, confusa e sem identidade, que se assemelha à de um cego de muletas em uma chuva de pedras, uma chuva torrencial sem um pingo da energia ou originalidade dos projetos iniciais dos envolvidos. Outro ponto que também decepciona é a mixagem de som. Em um trabalho extremamente incompetente por parte da equipe de engenharia de som, seguindo a tendência atual da música “mainstream”, o álbum todo está extremamente barulhento, com a guitarra e os vocais praticamente camuflando todo o resto de maneira que chega até mesmo a irritar. É realmente frustrante tentar escutar o trabalho criativo de Jones e só conseguir ser torturado pelo timbre sem sal e estrondoso das guitarras dobradas, que eu simplesmente não consigo imaginar com que objetivo foram colocadas tão alto. 

Pictured: não um bom objetivo.

            É mais triste ainda constatar que, apesar de tudo, o álbum dos Vultures ainda foi uma das melhores surpresas do ano que passou, o que evidencia o atual momento catastrófico da indústria musical. Na cultura do mínimo esforço e do lucro máximo, pouco resta de original ou verdadeiro no Rock’n Roll. É quase como se o estilo tivesse tido sua morte decretada anos atrás, e tudo o que nos restou foi uma corrida desesperada pelos últimos centavos. Fãs de Queens of the Stone age podem até apreciar este álbum alternativo e bem-intencionado do Them Crooked Vultures, mas aos fãs de Lez Zeppelin ou Foo Fighters, fica o conselho: passem longe deste disco.  

   

Rindo de você que deu 40 conto nesse disco marromenos.

 

 

Categories: Música

That’s Kinda Kinks

26/04/2010 13 comments

 

  

O the Kinks, até certo ponto, dispensa maiores apresentações. A banda, formada no subúrbio de Londres pelos irmãos boa-pinta Ray e Dave Davies, pode até não ser a favorita de ninguém (ninguém sincero), mas é conhecida por qualquer um que se interesse um pouco mais pela história do rock. Com uma base de fãs que vai desde garotinhas ensandecidas, que se declaram fãs da banda sem nunca ter escutado para valer sem pescar sequer um disco inteiro, aos roqueiros de barriga-de-chopp que os consideram os mais explosivos do rock, o único consenso sobre a banda é a sua presença em qualquer lista de artistas influentes de qualquer revista que busque credibilidade (VEJA está fora). 

Os garotões ficaram famosos ao disputar os títulos de banda mais esquecida da onda do rock britânico com o The Animals, e com o The Who o título falacioso de popularizadores e primeiros usuários dos acordes de quinta, os famosos “power chords”, na verdade difundidos dez anos antes por guitarristas negros de Blues (principalmente pelo americano Elmore James). O hit chato e cansado de 1964, ”You Really Got Me”, repetido até a exaustão desde a pré-história por qualquer banda cover meia-boca de boteco, foi um dos primeiros exemplos de uso repetitivo e alternado, e principalmente não-negro, de power-chords. A banda também é lembrada pelas constantes brigas dos irmãos Davies dentro e fora de palco, inclusive por um acidente envolvendo um esfaqueamento entre os dois por causa de batatas-fritas. Além disso, a banda era famosa pelo alto nível de estrogênio presente em suas apresentações.

 

Chupem essa, feiosos.

Calma garotinhas ensandecidas, não escrevo este post para falar mal dos gatões de Musswell Hill. Muito pelo contrário, venho, através deste teclado, fazer justiça. Considero um crime os irmãos Davies serem lembrados justo por seus piores trabalhos. Começando pelo disco homônimo de estréia, típico de bandas pequenas da época com suas pilhas de covers óbvios e baratos, é um verdadeiro monte de merda sem originalidade  frente às estréias do mesmo ano dos Stones e dos Yardbirds. Os únicos highlights seriam “You Really got Me”, com seus dois acordes e letras ambíguas (os produtores da banda fizeram Ray colocar um “girl” na música, só para deixar bem claro que sua obsessão sexual era 100% desprovida de pênis), e “All day and All of the Night”, uma música definitivamente nada ambígua.

Após uma série de discos igualmente sem-graça, a banda finalmente entrou na onda de amadurecimento musical do final dos anos 60. Proibidos de realizarem shows por causa de uma briga em palco, os irmãos Davies tiveram tempo de sobra para investir em composições mais elaboradas. A coisa começa a melhorar com os progressivamente melhores face to face, something else e village green preservation society, até chegar ao seu ápice com Arthur, de 69 (óbvio), disco cuja capa abre este artigo. Apesar de terem conseguido emplacar alguns discos muito bons após este, até cair no monte de lixo que despejaram sobre o mundo dos anos 80 até o seu fim melancólico em 93, os Kinks nunca conseguiram superar a façanha que realizaram com este disco.

É um album sensacional e conceitual, com arranjos extremamente bem trabalhados e letras marcantes, contando a história de um veterano de guerra inglês puto com o império britânico, que resolve se mandar para a Austrália. Se Tommy, do The Who, é considerado a opera rock mais ambiciosa da época com suas letras e temas , Arthur pode ser considerado a mais ambiciosa musicalmente falando, com seu instrumental excepcional. A sensação é de estar diante de um verdadeiro musical.

Eu disse VERDADEIRO.

 
Poderia me demorar mais na análise do album, mas este post já está grande demais, fica só a recomendação e a dica das melhores músicas do album:  “Victoria”, “Yes Sir, No Sir”, “Nothing to Say” e a faixa-título “Arthur”, não morra sem escutar.

 

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